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24 de jun. de 2013

Natividade de São João Batista - 2° Parte


A primeira vista, falta na liturgia de hoje o "Benedictus", o canto de ação de graças de Zacarias ao nascimento de João (Lucas 1,68-79), cortando fora da perícope evangélica (talvez porque a liturgia foi composta por monges, que rezam esse cântico cada manhã no divino ofício e acharam que ele sobrecarregaria a missa). Ora, nada impede de usá-lo como salmo responsorial, ou como canto da comunhão, que cita um versículo dele como antífona.

Na atualidade que vivemos, a presente festa oferece uma ocasião para iluminar os profetas de hoje, essas pessoas "difíceis", cujo nascimento foi uma graça,  e por isso agradecemos a Deus anunciando o Sol.

É nesses versos que aparece a beleza da evocação na missão de João:

"E tu menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor, preparando os seus caminhos, dando a conhecer a seu povo a salvação, com o perdão dos pecados, graças ao coração misericordioso de nosso Deus, que envia o sol nascente para nos visitar..." (Lucas 7,76-78).

O sol nascente é Jesus. E quando nascer esse sol nascente, a luz da lua (ou da estrela da manhã?) deverá diminuir, como o próprio João (João 3,30).


De fato, o batista, como é apresentado na bíblia, está totalmente em função daquele que vem depois dele, Jesus. Essa perspectiva dos evangelhos talvez não tenha sido a dos seus contemporâneos, como mostram alguns traços dele encontrados fora da bíblia. Mesmo na bíblia encontramos indícios de que a atividade histórica de João não foi totalmente absorvida pela de Jesus (Atos 19,1-6, os dicípulos do batista em Éfeso por volta de 50 d.c.). Mas para os evangelistas, a obra do batista foi o anúncio do sol que estava nascendo, a luz prometida por Deus a seu povo:  
Jesus de Nazaré.


Não só João preparou a chegada de Jesus; ele é a plenitude de todos os profetas, sendo o último e o maior deles, o decisivo, aquele que encerra o anúncio profético do antigo Israel.

"Até João, a lei e os profetas! A partir de então, o reino de Deus está sendo anunciado, e todos usam de força para entrar nele"(Lucas 18,16).

Ele é descrito como um novo Elias, pois ele era esperado para preparar, com sua pregação de conversão e reconciliação, a visita final de Deus a seu povo (cf. Eclesiástico 48,10).

Estamos inclinados a pensar que a missão do Batista terminou no ano 30, quando Jesus se apresentou. Mas em todos os tempos a missão do Batista continua necessária, pois a luz do sol ainda não surgiu em todos os lugares, e pode acontecer também que em algum lugar já tenha escurecido. Anunciar o sol é uma figura para dizer que em todas as circunstâncias é preciso preparar os corações para receber o enviado do pai, o próprio filho de Deus. Em nossa sociedade urbana-industrial, o sol de Cristo parece estar nublado. Quem sabe, pela poluição mental. Quando nesse ambiente apresentamos todo o "aparato" Cristão, isso é recebido com uma mentalidade sensacionalista, comercial, não como a luz benfazeja do sol, mas como o cintilar da propaganda. Não seria melhor mandar um João Batista à frente?
Pe.João Azeredo

Natividade de São João Batista - 1ª Parte

A festa da natividade de João Batista assemelha se as festas na infância de Jesus. O espírito é "lucano":

Evoca a manifestação da graça e bondade de Deus.

O lema é a frase de Zacarias: "João é seu nome" (Evangelho).

Esta frase é uma mensagem da gratuidade e bondade
de Deus. O próprio nome Yohanan significa:

"Deus se mostrou misericordioso".
João é um dom gratuito de Deus.

Isto mostra-se de diversas maneiras: na idade avançada de seus pais; o fato de ninguém na família se chamar assim; o fato de Deus "soltar a língua" de Zacarias para que ele pudesse dizer que "João é seu nome";

Ora, quando se trata de Deus, "gratuidade", significa não ser condicionado por cálculos humanos. João, é a criança que encarna a gratuita bondade do Senhor, pertence completamente a Ele. É "profeta do Altíssimo" (Lucas 1,76). Seu modo de viver lembra Elias, o profeta que vivia no deserto, impelido pelo Espírito (cf.Lc 1,80). O anjo anuncia que João andará no espírito de Elias, o mais típico "homem de Deus" no antigo testamento (Lucas 1,17).

A pertença a Deus faz de João uma nova realização do Servo (1° leitura), um homem cuja palavra é como uma espada, incômoda para quem não quer saber de Deus em sua vida. A história de João prova isso. Hoje, 24 de Junho, demos graças a Deus por um "homem difícil". Pois são muitas vezes as pessoas difíceis que mais nos ajudam na vida. Suas palavras incômodas nos fazem ver com maior clareza nossa situação. Neste sentido, João é uma luz (Isaías 49,6) fala da luz as nações, embora ele não seja a luz definitiva, mas sim a testemunha dela (João 1,6-8; 5,33-35); Ou, já que falamos em termos figurativos, ele é como a lua que desaparece quando cresce a luz do sol (cf. João 3,30).

João é luz, ou testemunha da luz, sobretudo por ter apontado Cristo no meio da humanidade. O querigma apostólico, o anúncio de Cristo, começa com João (cf. Atos 10,37). Para isso, há uma razão teológica. João encarna Elias, que era esperado voltar antes da "visita" de Deus (Eclesiástico 28,10); Jesus identifica João com Elias (Cf. Marcos 9,11-13; Mateus 17,10-13; 11, 14; Lucas 7,26-27). Mas há também uma razão histórica. Jesus iniciou, sua pregação do Reino, em ambiente "pré-aquecido" pela pregação de João.

Isto contém uma profunda lição. Mesmo no ponto culminante de seu agir salvífico, Deus não despreza a preparação humana. Deus não dispensa "o maior dos profetas", embora o menor no reino dos céus seja maior do que ele (Lucas 7,28). João encarna, a plenitude do antigo testamento e de qualquer outra preparação para o Evangelho.
Pe.João Azeredo